sexta-feira, 30 de março de 2018

Gnosticismos Vs Cristianismo: Quem tem o dom de me salvar?



Até onde pude apreender das seitas gnósticas que pululavam na Idade Média e cuja estrutura de pensamento anima muitos movimentos atuais, o que é uma constante nelas é a crença de que o ser humano pode Se salvar. O que separa a danação da salvação é um ato de compreensão da realidade cósmica, a gnose. Esta realidade é salvadora per Si, bastando ao homem (re)conhecê-La. 

O Cristianismo ensinado pela tradição católica diz-nos que a salvação não é um dom humano, apenas de Deus, que esteve presente na história através de Jesus, este sim, único capaz de nos salvar. Seu ato salvífico se deu no sacrifício último da cruz. Para que possamos nos salvar só pode ser através Dele. Não basta apenas compreendê-Lo, é preciso aceitá-Lo como a verdade salvífica encarnada, pela fé.

Veja que há uma antinomia nessas duas teses. Ou salvo a mim mesmo ou alguém me salva. 

Os grandes movimentos revolucionários dos últimos séculos estão fundamentados em gnosticismo. Do positivismo comteano, passando pelo socialismo marxista, chegando ao ecologismo radical a salvação está ao alcance do ser humano, providenciada por um ato dele, iluminado por uma consciência superior (a da positividade da história em Comte, a da necessidade revolucionária em Marx, a do reconhecimento de Gaia na filosofia verde). Dessa forma, todos eles tiveram de desmerecer a tese da salvação única e exclusivamente através de Cristo. 

Como toda boa antinomia, não acho que a segunda tese seja facilmente descartável. Primeiro porque a realidade do aqui e do agora nos mostra a precariedade da natureza humana, nossa fragilidade, nossa tendência despudorada ao pecado. Como enxergar nisso uma via de salvação?

Respondem os gnósticos, revelando um Eu superior que se agita em cada um de nós. Contudo, essa intelecção do Eu superior, embora seja uma hipótese elegante, não é fácil de materializar. Somos, quando muito, seres mais ou menos bons, algumas vezes caridosos, quase sempre cruéis. A desconfiança contra o próximo tem sua razão de ser. Estivemos há pouco sob risco de extinção pelo nosso próprio mérito. 

Falam os gnósticos, então, que há eras na humanidade, das quais a nossa é a pior, e que a partir de então tudo tende a melhorar. Vê como é fácil enxergar uma má-fé nestas explicações? Quando o argumento é contundente, eles nos devolvem a explicação para um lugar que não podemos alcançar: um Eu superior, uma outra Era. 

A tese do Cristo salvador tem o mérito de dar ao homem uma possibilidade atual de salvação. A qualquer momento, é só crer. Não há Era ou Eu, é apenas você, do jeito que é, com o Cristo. É um encontro pessoal e inalienável. Dir-se-á que esse Cristo é um transcendente ilusório. Não para aquele que crê, que o sente, que o experimenta em si às lágrimas. Também não mais, e talvez até menos, do que a comunidade politicamente correta, a comunidade  justa ou o homem enfim em paz com a natureza. 

Quem reconhece a própria falibilidade, o que é uma tremenda sensatez, e enxerga no Cristo a imagem do justo ressuscitado, Nele entregando seus podres para prosseguir redimido pertencente à uma igreja harmonizada pela presença estruturadora Dele, já experimenta uma felicidade que outros adquiririam a custa de peiote. 

Parece óbvio que sou eu que me salvo. Parece necessário que tenha de haver um Cristo para me salvar. Não sei se encontraremos um apaziguamento dessa antinomia tão cedo. 

segunda-feira, 26 de março de 2018

Um familiar meu falecido vem pedindo reza em sonho



Amiga: Bom dia, Allan! Por favor, tira uma dúvida. A senhora que está morando na antiga casa do meu avô, disse que ele está aparecendo pra ela e pedindo pra família rezar por ele, mandar fazer missa e acender vela. Essa senhora não o conhecia, mas está com muito medo. Como é que a gente pode saber se é verdade? Poderia ser uma alucinação, mas o conteúdo não é compatível. Apesar do medo, não há outros comemorativos para um surto psicótico. Enfim...

Resposta: A história de vida dele é de alguma forma compatível com que ele, depois da morte, esteja precisando de amparo? Se sim, não custa nada rezar na intenção dele. Se não, não haveria porque se exasperar com essa pretensa revelação da senhora que está lá. Claro que é impossível, no fundo, saber a vida íntima de alguém, e saber se ela realmente não esteja precisando de ajuda. Mas, de todo modo, se fizer muito tempo que ele faleceu, por que ainda não conseguiu receber ajuda de seu anjo-da-guarda? O anjo-da-guarda é infinitamente mais poderoso do que qualquer um de nós. 

Uma boa prece seria pedir luz para que ele consiga enxergar o próprio anjo, às vezes as pessoas se fecham para a ajuda. Outra coisa que acontece é Deus permitir a comunicação de um ente querido a fim de que a família como um todo se volte para a espiritualidade. De novo, não custa nada colocar nossos ancestrais em nossas preces. A cultura japonesa faz isso lindamente, e em larga escala, pela religião Shintō. Aqui, na nossa cultura do aqui e agora, particularmente esta que viemos construindo no último século, costumamos perder o contato afetivo com nossos ancestrais depois de eles terem ultrapassado a soleira da morte. 

De todo modo, se você tem realmente desejo de receber alguma mensagem de seu avô, o Lar de Clara faz essa atividade de "correio do além". Vou te passar o endereço: R. Ubaldo Sólon, s/n - Guaié, Caucaia

O que acontece lá é nesse estilo aqui:


Crítica teatral à certa peça de amigos



Um grupo de teatro espírita amigo havia me convidado para criticar sua peça. Depois me pediram para escrever o que havia dito, como se fosse um manual de instruções das possibilidades de reconstrução. Teria sido essa a vontade deles? Quase o fiz. Sentei pra fazer, mas me veio a vontade de apenas reforçar a ideia, a força, o emblema.



Amigos,

É importante ter em mente que ninguém escreve um texto sem estar filiado à uma cosmovisão. Isso é ponto pacífico nas ciências humanas. Mesmo o artista que quer se dizer independente de escolas está participando da escola dos independentes, e isso virou moda na arte moderna. A regra é transgredir, e virou regra mesmo. De tal forma que se alguém segue regras antigas é execrado pelos pares que não seguem regras. A cosmovisão está explícita: não há regras porque o mundo é um caos, é a ausência de sentido, é um conjunto de forças aleatórias que nos dilaceram. A lógica é a do desespero. O mal estar é a norma, e a resposta só pode vir do próprio acaso, que também pode gerar a piora da depressão. Ninguém o domina mesmo, este tal de acaso.

Percebi isso na medicina. A cada 5 anos, diziam pra gente, tudo mudava dos dogmas médicos, por isso que ninguém deveria se fiar em livros que tivessem mais de 5 anos. Sempre tive um incômodo com isso. Era óbvio, todos aceitavam. Eu não. Eu odiava essa perspectiva. Depois fui entender que me incomodava com aquilo porque fui criado e acreditava piamente que havia verdades eternas que conduziam a realidade apesar da voracidade do tempo que mastiga tudo. O que havia em mim era a luta entre essa minha forma de ver a vida e a forma que a medicina queria me impor.

Por que essa digressão? Porque quando vocês dizem abertamente que não vão falar sobre isso ou aquilo do Espiritismo, apesar de serem espíritas, estão abrindo a brecha para que outra cosmovisão assuma a lacuna que vocês deixaram. Quem é a filosofia mais óbvia que pode assumir a lacuna de quem abdica dos seus dogmas religiosos? A materialista ou imanentista (o aqui e o agora somente).

Sartre dizia que a ideia de Deus era de menor importância para construir seu sistema filosófico. Ora, só porque o seu sistema filosófico erigia o homem como deus de si (a existência precede a essência). Não era que a ideia de Deus era de menor importância, mas surgia como uma inconsistência e um contra-argumento devastador. A maior parte dos filósofos do mundo entreguerra construíram sistemas que buscavam uma explicação que a ideia de Deus não havia sido suficiente para explicar - para eles. Daí vir os sentimentos mestres destas correntes: a filosofia do tédio, da falta de sentido, da insignificância do sujeito, e do desespero. Como reconstruir respostas apenas com estes elementos?

Resposta espírita: não dá.

Se estes sistemas filosóficos tivessem analisado o fenômeno das mesas girantes com respeito, teriam percebido que:

  • Não há tédio, pois a música quase ao final dá sempre uma guinada, e mais outra, quando reencarna, e assim vai;

  • Não há falta de sentido. Se olharmos apenas para a vida dentro da vida, não há sentido. Ir da vida para a vida, do aqui para o aqui não é sentido nenhum. Só faz sentido falar de sentido, se houver um fora da vida para onde nossa vida está apontada;

  • Não há insignificância do sujeito. O coração teimoso persiste glorioso após o esmagamento de toda a matéria arredia. E o que sobrevive é o coração de pessoas singulares, sujeitos na maior acepção do termo. 
 
  • Não há desespero último. A estrutura da realidade está sempre grávida da intervenção divina, esperando apenas o tempo de acontecer o advento de Cristo em nós. Esperar, e vir a acontecer sempre no momento oportuno.

Então, uma peça espírita não é espírita porque contém as palavras reencarnação, obsessão, imortalidade da alma, mas porque as histórias que nela se desenrolam:

  • Possuem um sujeito que fala, para quem Deus olha como pessoa singular, não perdido numa massa qualquer, mas um filho querido;

  • Possuem sentido que transcende todo e qualquer problema, desfaz todo e qualquer nó, ressuscita em redenção. Sempre tem que haver redenção, senão não acabou a história;

  • Se há essa resolução redentora, adeus tédio! Bem-vinda roda viva que continua a girar em círculos espiralados para o alto e além;

  • Não há desespero último, pois a espera sempre é beijada pelo advento do amado. Este amado era o esperado, aquele que haveria de vir. E ele desce para resgatar todos os que estavam perdidos.

Esse último elemento é bem cristológico, mas também não precisa ser o próprio Cristo. A velinha do final da peça é a vozinha amada que o garoto do lado esperava. O garoto é a companhia querida que a vozinha almejava. Estes dois são os ouvidos atentos que o músico queria para dedilhar seus acordes finais. Mas, mesmo o encontro dos três é pouco, pois a promessa espírita é que "o amado" resgata as pessoas da corrupção da carne, isto é, de sua mortalidade. Esse encontro, para ser cristológico, tem de gerar vida, e vida eterna - para todos e para cada um. Esse encontro é revolucionário, entorta rotas, revolve os caminhos, desnorteia os de visão obtusa de tão clara que é a luz que dele explode.

Toda solução das histórias espíritas se resolvem com a geração de vida, e vida eterna - para todos e para cada um.

Acho mais fácil entregar estas reflexões do que ficar tricotando a peça de vocês com intervenções minhas. Coloquem isso na cabeça, que foi o que aprendi até agora, e acho que conseguiremos construir bem nossos enredos.

Obrigado por me darem ouvidos, fico lisonjeado!

O poder magnético da prece



Fui convidado para falar sobre o poder magnético da prece. Quando, em meio espírita, assim nos solicitam, um nome não pode deixar de ser mencionado: Mesmer.

Allan Kardec, embora tenha nascido para o círculo intelectual francês com os dotes de professor de crianças ao estilo pestalozziano, enveredou por vários campos do saber, culminando em ser um dos mais eminentes estudiosos do magnetismo animal ou mesmerismo.

Conhecemos as práticas magnéticas popularmente sob a alcunha de hipnotismo. O que diferencia a sugestão hipnótica moderna da exercida à época de Kardec é a explicação do fenômeno.

O cotidiano nos apresenta o magnetismo pelo comportamento ferromagnético de alguns metais, são as experiências de imantação. O que elas nos dizem é que alguns corpos na natureza podem influenciar outros corpos sem forças de contato. O médico Franz Anton Mesmer (1734-1815) verificou que essa propriedade era extrapolável para a natureza humana, chamando a isso de magnetismo animal. Essa influência pode ser tanto benéfica quanto maléfica. Podemos, portanto, modificar o moral de outros corpos auxiliando-os ou prejudicando-os. O Dr. Mesmer empregou isso de forma médica e desenvolveu uma teoria explicativa.

Para que um corpo exerça influência sobre outro a distância era preciso que algo os conectasse de algum modo, fazendo com que a substância de um estivesse em relação direta com a do outro. Se não havia matéria palpável e visível para tanto, deveria haver uma matéria sutil entre ambos, passível de ser afetada pelo impulso que um deles emitia, transmitindo este impulso para o outro, que sofreria suas consequências. A esta matéria sutil deu o nome de fluido cósmico. Aproveitava assim uma crença anterior de que todos os corpos estavam imersos em uma grande massa quintessencial chamada éter. No éter nos movemos, afetamo-lo e por ele somos afetados. Eis uma explicação quase nunca abordada de onde o filósofo Baruch Spinoza (1632-1677) tirou sua ideia de uma substância divina causa primária de todos os seres como afetos de seu grande corpo cósmico.

Dessa forma a explicação fica fácil tanto para o magnetismo mineral quanto para o animal. A afetação recíproca dos corpos é possível porque estamos mergulhados nessa substância sutil capaz de se deformar e propagar a deformação característica imprimida sobre ela.

O mesmerismo, febre que foi por um tempo, passou a ficar à margem das ciências médicas, escanteado como charlatanismo, superstição. Recentemente, os estudos de antropologia cultural voltaram a analisar os fenômenos de influência não tangível que alguns humanos poderiam exercer sobre outros, particularmente em culturas xamânicas. O mais notável antropólogo que divulgou estes estudos foi Claude Levi-Strauss (1908-2009). Em seu trabalho "o Feiticeiro e sua Magia” ele descreve a morte provocada por rituais e palavras de encantamento. Contudo, a explicação que agora era dada para a questão passava ao largo de qualquer concepção de massa etérica, referindo-se, então, a certa estrutura simbólica compartilhada entre os indivíduos partícipes do ritual. Por esse modelo explicativo, apenas pessoas mergulhadas na mesma estrutura simbólica eram passíveis de serem afetadas pelas palavras e gestos do xamã. 


O que dizer, no entanto, das curas que Jesus provocava à distância, como aquele do servo do centurião romano?

"Entrou Jesus em Cafarnaum. Um centurião veio a ele e lhe fez esta súplica: Senhor, meu servo está em casa, de cama, paralítico, e sofre muito. Disse-lhe Jesus: Eu irei e o curarei. Respondeu o centurião: Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa. Dizei uma só palavra e meu servo será curado. (…) Dirigindo-se ao centurião, disse: Vai, seja-te feito conforme a tua fé. Na mesma hora o servo ficou curado." (Mateus 8:5-8; 13)

O centurião, que era romano, não participava da mesma estrutura simbólica de Jesus, que era judeu. O servo estava distante e, embora talvez tivesse fé, não previa o momento das palavras e gestos de Jesus para “na mesma hora” ser curado. A explicação, pois, estruturalista do Prof. Strauss não cabe nesse contexto, sendo mais coerente retornarmos a noção do fluido cósmico afetado por Jesus para propagar a energia de cura.

O que essa discussão deve provocar é o aumento de nossa convicção a respeito da força de nossos gestos e dizeres a favor ou contra as pessoas. Toda vez que abençoar um filho ou um amigo saiba que essa bênção é mais do que um símbolo que hoje, nessa sociedade cada vez mais dispersa, tem cada vez menos valor. A bênção, ou a maldição - que seja sempre a bênção! -, tem força de contato (afago ou punhal) sobre as pessoas, quer elas queiram ou não. E quando alimentado por um grupo inteiro geram aquele clima benfazejo ou funesto, leve ou pesado, de certos lugares.

De outro modo, sobre as preces de caráter petitório direcionadas a Deus, além do chamado da ação direta de Deus em nossa vida, utilizando o modelo explicativo mesmeriano, atuam modificando o fluido cósmico ao nosso redor tornando-nos mais favoráveis de receber influências e promover ações que facilitem a consecução de nosso desejo.

Mais cuidado com nossas preces!

terça-feira, 6 de março de 2018

E fez-se a luz... e a escuridão!

Ideia de peça segundo a concepção que tenho da criação do universo, em linhas mitológicas.

(Deus tem um corpo avantajado feito uma montanha, mas tem movimentos leves de bailarino. Neste dia está resfriado e feliz. Entra em palco dançando e, de repente, um grande espirro. Um estrondo se faz ouvir, as luzes apagam, gradativamente vão-se acendendo luzes pequeninas no pano de fundo: são as estrelas que nasceram de seu espirro. Uma atriz vestida de estrela despenca no palco e se levanta mostrando a barriga grávida. Lembrem sempre que Deus é um dançarino e que a cada novo espirro há estrondo e estrelas).

Deus: Minha Vida, você traz vida para mim!
Estrela: Meu Senhor, você me faz viva assim. Grávida de todos os seres que começarão a habitar nossa mansão. 
Deus: Tinha você em pensamento desde o início da eternidade. E o amor que de lá trago parece ter se feito todo em você. Veja o tamanho da barriga!
Estrela: São muitos, meu Senhor, mas fico aflita em saber que serão deles quando saírem de mim.
Deus: Tenho trabalhado leve em um berço duro para lhes acolher. Meus queridos espíritos... Espíritos... Está bom estes nomes para nossos filhos?
Estrela: Sem querer questionar Sua sabedoria, queria que cada um fosse chamado diferente.
Deus: E serão! Mas, são tantos e tão diferentes que cabe perfeitamente que os chamemos assim: espíritos. Nossos bebês! Vai que nasce um e se chama José. Será José amado como José. Vai que nasce outro e se chama Maria. Será Maria amada como Maria. Vai que nasce mais um e se chama João. Será João amado como João. 
Estrela: Venho já costurando o nome de muitos neste negro bordado que nos envolve, cada constelação. 
Deus: Venho fazendo berços de pedra para que os possamos acalentar. 
Estrela: Venho aquecendo meu corpo para os ninar. 
Deus: Venho esfriando bolotas de fogo para os ver correr por aí, escapulidos das pedras, pelo canudo das plantas, engolido por animais, revestidos por corpos humanos...
Estrela: O Senhor, meu esposo, já fez todo um programa de diversões para nossos pequenos. E eles apenas aqui estão. (aponta a barriga enorme). 
Deus: Não se preocupe que eu esteja pensando no futuro deles, minha Vida. É que o tempo na minha cabeça não passa. Ontem quando os criei já não mais existe, tanto quanto o futuro em que, depois de crescidos, viverão ao meu lado. Nem ontem, nem amanhã. Nada existe lá, porque tudo está aqui, no meu coração presente. Vivo a sua gravidez com a mesma intensidade de quando engravidou e de quando vai parir. 
Estrela: Difícil entender o tempo que se passa aí. 
Deus: Pára de compreender, fecha os olhos, acalma, deixa nossos filhos sair. 


(A Estrela dança uma valsa com Deus em que ele a conduz até o sono. Deus funga toda a luz da cena e sopra no ventre de Estrela. Uma grande luz se faz. Risos de crianças se espalham pelo ar. Estrela acorda já sem barriga e passa a admirar os risos, os sininhos e, por fim, a caixinha de música que toca ao fundo. Um berço de pedra está balançando no centro do palco. Uma música começar a tocar. De dentro do berço um homem de pedra sai engatinhando e, no ritmo da dança, ganha o espaço até estar bem ereto a bailar. Deus e Estrela entram na dança de vez em quando, apenas conudizindo-o  até ele conseguir dançar sozinho. Outros homens de pedra se misturam na dança até serem aos poucos substituídos por plantas, depois por animais e, enfim, numa cena, em que Deus e Estrela a assistem suspensos em tronos em nível superior. Vê-se surgir homem de carne, quase pelado, se encontrando no palco, reconhecendo o corpo, reconhecendo o enredor, e vendo, ainda, pedras, plantas e animais a gravitar em seu redor).

Deus: Filho, como estás?
Homem: Sinto-me estranho, meu Pai. Meu corpo é frágil, não tenho raízes, mal tenho agilidade nas pernas, meus pêlos caíram quase todos, mas eis que me encontro aqui a poder lhe falar tudo o que sinto. 
Estrela: Você está lindo, meu Filho!
Homem: Mas, estranho... Tudo que ao redor existe, para eles vejo uma função. Para mim, para que sirvo? O que devo fazer?
Deus: Depois de ter aprendido sobre como manter seu próprio corpo coeso, e ter entendido a importância das raízes; depois de ter conhecido o lar que criei para você, explorando o espaço, devo te entregar o mais precioso dos bens.
Homem: Qual seria, meu Pai?
Deus: A oportunidade de conhecer a si mesmo através de si. 
Homem: Eu me conheço desde sempre. Sou Seu filho e a Sua vontade cumprirei. 
Deus: É da minha vontade que meu filho não seja meu servo, mas venha a mim pela própria vontade. Até então estive lhe guiando com uma intensidade que encobria o seu mérito. A partir de hoje devo entrar em silêncio e me confundir com o espaço. 
Homem: Pai, já não lhe vejo! Onde estás?
Deus: Sempre ao seu lado. 
Estrela: Meu Senhor, permita-me iluminar o caminho desse menino.
Deus: Seja feita a sua vontade!
Homem: Mãe, não posso olhar para a senhora, há brilho demais!
Estrela: O que houve, meu Esposo!
Deus: É chegado o momento de ele construir as próprias leis, querida. Se você estiver muito ao lado dele, pode cegá-lo ou queimá-lo e nunca, assim, atingirá a lição derradeira. Permito que você o ilumine e o aqueça, mas de longe, muito longe.
Estrela: Entendo!
Homem: Não se afaste mãe, não se afaste! Por favor...
Estrela: Não se preocupe, meu bebê. Centuplicarei o meu brilho para que possas aproveitar o calor do meu colo e, ainda distante, sua vida se nutrirá de mim. Não posso ser onipresente como Seu pai. Mas, posso brilhar com tamanha intensidade, que é como se eu estivesse sempre ao lado. 
Deus: Porém, como ele irá conhecer tudo o que a ele pertence, se todo o tempo o seu brilho de mãe ofuscar o resto do universo? Preciso, querida, que todos os dias se esconda um pouco para que ele possa ver os outros irmãos que espalhei por aí, semeados em outros planetas iluminados por outras luzes que não a sua. 
Estrela: Que seja feita Sua vontade, Meu Senhor! Não se esqueça de mim à noite, filho. Trarei meus braços ao amanhacer para lhe acalmar. Permita, ao menos, que ele descanse quando eu estiver longe, querido. 
Deus: Permito! A isso chamarei de sono. E nesse momento, poderás ser livre da matéria para vir até nós ou vagar por aí caso decida não nos encontrar ou se vier a nos esquecer. 
Homem: Nunca irei me esquecer daquele que sei que é a fonte de toda a vida!
Deus: Você precisa crescer, filho! Nunca acontecerá isso se ficar todo tempo no nosso encalço. Preciso que conheça seus irmãos, amando-os como se eles fossem o bem mais precioso. 
Homem: O Senhor é o máximo bem! Minha mãe a mais sagrada companhia! 
Deus: É por esta relutância que a partir de hoje permito que possa duvidar da minha existência, tapar os ouvidos à minha voz, seguir a própria vontade, ainda que ela signifique a morte. Sempre farei com que renasça de novo até que Me encontre de fato.  


(A grande luz de Estrela se apaga e o homem passa a ouvir apenas os barulhos da noite).

Homem: (assustado) Pai? Mãe? Onde estão? Falem comigo? 

(Chega a Mulher tão assustada quanto o Homem).

Mulher: Quem é você?
Homem: Eu que pergunto: quem é você?
Mulher: Não sei mais. 
Homem:  Nem eu...

Só mais um instante

(O quadro é de luto dentro do palco. Há um caixão, pessoas chorando, um aglomerado de amigos ao redor da viúva e de dois filhos. Alguns dos presentes estão parados, velando. Outros conversando amenidades que não se ouve. Do lado do caixão, o recém-morto fita a ainda esposa. Um amigo espiritual está ao seu lado tentando lhe convencer a partir)

Amigo: Por que você insiste em ficar?
Morto: (sem desespero ou angústia) Não insisto. Só peço mais um minuto. 
Amigo: Não vai lhe fazer bem. 
Morto: Mas, quero sentir. 
Amigo: O quê? A tristeza dos que ficam? 
Morto: O amor por quem parte. 
Amigo: Esse amor é desespero. 
Morto: Qual aquele que nunca foi?
Amigo: Os amores serenos existem e nos agradam.
Morto: Aqui na Terra, amigo, a serenidade dura um instante. Por favor, só mais um momento. 

(A viúva se aproxima do caixão e coloca o lenço ao rosto soluçando, tentando ao máximo ser discreta. Ela toca o rosto do cadáver. O morto sente ali do lado. Coloca a mão no peito de forma discreta e doída.)

Amigo: O que foi? Sente algo?
Morto: Que importa? Já morri. 
Amigo: Isso pode lhe custar mais algum tempo nas zonas de recuperação.
Morto: Parece que tempo é algo que já não me falta. 


(O filho chega e beija a cabeça do cadáver. O morto sente, fecha os olhos e sorri).

Morto: Ele não costumava me beijar. 
Amigo: Antes fosse quando você podia sentir. 
Morto: Mas, eu senti. 
Amigo: Estamos demorando demais aqui. Acho que você está piorando a tristeza deles. 
Morto: Não sente que é amor?
Amigo: É tristeza. 
Morto: Aqui na Terra, amigo, o amor tem suas vezes de tristeza. Por favor, só mais um pouco. Estou bem.
Amigo: Está chorando.
Morto: Porque estou indo embora, é normal. Deixe só mais algumas lágrimas cair. 


(A filha chega e deita sobre o peito do cadáver. O morto sente e encurva o peito como a lhe acolher).

Morto: Desde pequena ela faz isso. 
Amigo: (silêncio)
Morto: Quando vou poder voltar?
Amigo: Quem sabe? Só Deus. 
Morto: Então, Deus, me dê só mais um instante antes de partir. 

As três missões do Dramaturgo

Todos os que escrevem histórias sobre o mundo, temos uma grande missão. Dizem que inventamos cenas, situações e conflitos, então seria sob uma ilusão que faríamos as pessoas viver e se apaziguar na catarse dos espetáculos. Digo, porém, que revelamos realidades, cujo melhor ângulo de visão se mostra ao se apresentar fora das pessoas. Misturada a vida com nosso corpo, os invisíveis seres passam por nós, não porque são invisíveis, mas porque somos eles.

O dramaturgo tem esse divino dom de enxergá-Los, arrancá-Los da escuridão, iluminá-Los no palco, e deixar que nós os reconheçamos.

O dramaturgo tem esse divino dom de enxergar-Nos, Nos arrancar da escuridão, Nos iluminar no palco, e deixar que nos reconheçamos. 


O dramaturgo tem esse divino dom de enxergar-Se, arrancar-Se da escuridão, iluminar-Se no palco, e deixar-Se reconhecer.